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Junho - O Mês que Abalou o Brasil
Direção: João Wainer  (2014)
Equilíbrio entre solavancos, por Marcelo Coelho
Um agit-prop sem causa, por Carlos Alberto Mattos
Junho - O Mês que Abalou o Brasil 2.jpg
Equilíbrio entre solavancos
por Marcelo Coelho

Para marcar o primeiro aniversário das manifestações de 2013, o documentário Junho, de João Wainer, terá lançamento simultâneo nos cinemas e na internet (via iTunes) no próximo dia 5.

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O filme, que tem produção da TV Folha, haverá de produzir reações quase tão desencontradas quanto o próprio movimento. Vai aqui a minha opinião.

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A esta altura, acho que o mais interessante a discutir seria não como tudo começou, mas por que não foi adiante.

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Seria, talvez, o tema para outro documentário, não o que João Wainer quis fazer. Ele privilegiou as imagens vibrantes da rua. Na primeira metade do filme, a montagem é rapidíssima, procurando transmitir o clima das manifestações iniciais, com a câmera ao rés do chão.

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O desafio, que Junho vence com inteligência, é manter-se equilibrado em meio a tantos solavancos. Mostra muito bem a revoltante violência da PM, sem deixar de ouvir, em pleno calor das passeatas, o que dizem os soldados.

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Seguem-se imagens, gravadas bem de perto, dos saques a uma loja de eletrodomésticos —claramente propiciados, como diz um entrevistado da Mídia Ninja, pela intencional omissão das forças de segurança.

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Mas é a partir daí —e quando alguns grupos tentam invadir a prefeitura, o Palácio dos Bandeirantes e, que sei eu, o Congresso, o STF, até o Itamaraty— que o documentário perde o foco.

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Como tantas vezes acontece, uma minoria radicalizada termina desencadeando o naufrágio dos movimentos de transformação. Não penso apenas nos “black blocs”, que fizeram às autoridades o favor de tirar a população das ruas e legitimar a violência policial.

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Ainda não foi esclarecida a suspeita de que forças ligadas ao crime organizado ou à própria polícia tenham tido sua parte nos estragos; no Rio de Janeiro, pelo menos, o quebra-quebra na Assembleia Legislativa levantou hipóteses nesse sentido.

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O governador Sérgio Cabral, cujo histórico de papelões não se limitou ao mês de junho de 2013, não aparece no filme, centrado excessivamente em São Paulo.

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No capítulo das omissões, acho importante lembrar que Dilma Rousseff não fez apenas, em seu discurso pela TV, uma explicação sobre os gastos da Copa do Mundo e uma conclamação à paz esportiva.

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Lançou, e eu achava que estava certa, a proposta de uma Assembleia Constituinte para promover uma reforma política. A ideia foi bombardeada de todos os lados, sendo invocado o argumento, a meu ver puramente formal, de que uma Assembleia Constituinte não pode ter limitadas as suas funções. Bem, que se mudasse o nome então.

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O fato é que tanto a camada governante quanto as próprias lideranças originais do movimento —focadas na questão das tarifas de transporte— perderam a oportunidade de dar uma saída política para o que aconteceu.

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Ficou-se, como disse com bom humor o poeta Sérgio Vaz, entrevistado em Junho, num estado de “ejaculação precoce”: houve muito prazer nas preliminares, mas a transformação real não foi adiante.

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De certo modo, o documentário de João Wainer acompanhou, na sua própria estrutura, esse desencanto. Torna-se mais lento e repetitivo a partir da segunda metade.

Não pelas razões corretas, todavia. O certo, na minha opinião, seria acompanhar o declínio do movimento, até a desmobilização quase completa. Em vez disso, “Junho” quis terminar numa espécie de alto astral.

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O foco do documentário muda para a Copa das Confederações. Vemos o momento, por certo emocionante, em que toda a torcida canta sozinha o Hino Nacional, mesmo depois de terminada a gravação da banda sinfônica, na final do campeonato.

Cubra-se a tela, enfim, de multidões vestidas de verde e amarelo. Por mais que o comentarista Juca Kfouri assinale que o entusiasmo pelo futebol não abafa o descontentamento geral, o filme termina substituindo uma coisa pela outra.

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É ao mesmo tempo uma retrospectiva das manifestações e um “esquenta” para a Copa do Mundo, a ser distribuído para uma plateia internacional.

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Haveria tempo para falar de tudo? Para mostrar, ainda que o caso tenha ocorrido depois de junho, a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um rojão? Para saber se algum policial foi punido pelas barbaridades cometidas?

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Talvez se pudesse economizar, diminuindo um pouco a quantidade de comentaristas e politicólogos entrevistados no filme. Mas é hora deste comentarista dar o exemplo e ir parando por aqui.

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>> Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 28.5.2014.

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Leia também:

Um agit-prop sem causa, por Carlos Alberto Mattos

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   © 2023 por Gabriel Costa. Orgulhosamente criado com Wix.com

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